A vida entre os corredores

Por Gustavo Lima

Passo a passo. É em suas corridas que o coordenador de cuidados de medicina paliativa do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), Toshio Chiba busca equilíbrio emocional diante de sua profissão. O geriatra afirma que “a impossibilidade, como médico, para aceitar a falta de tratamento das doenças pode ser uma barreira”.

Treinados para lidar com a dor do paciente, os médicos que trabalham com cuidados especiais também lutam contra um inimigo natural, o tempo. Além de praticar esportes e de meditar, o coordenador também conta com um grupo multidisciplinar que o acompanha diariamente. “Fora o esporte, o que me mantém bem é o trabalho com a equipe”.

Longe do ICESP, no Núcleo Avançado de Cuidados Especiais (NACE), o médico assistente Leonardo de Oliveira Consolim é um dos principais contatos dos pacientes com os membros do grupo multidisciplinar. Geriatra por formação, o profissional explica que o contato direto com a “finitude” o faz refletir sobre estar vivo.

Jovem, de aparência calma e com um sorriso no rosto, o médico aponta o que o anima em trabalhar de forma humanizada. “De certa forma, eu tenho um prazer muito grande de fazer o que eu faço. Não só porque eu me vejo na condição de poder ajudar pessoas nessa fase final, mas também de poder entender melhor a minha própria vida, de poder apreciá-la e viver melhor”.

Para o Dr. Leonardo, o mais importante é a diferença em cada detalhe de sua relação com quem o rodeia. “Meu olhar para meus filhos, esposa, as pessoas que me amam, para os meus amigos e para aqueles bons momentos que eu tenho com eles é repleto de um significado mais sensível”.

Otimismo e um clima positivo de intimidade entre equipe e pacientes enchem os corredores do recanto. As conversas informais trazem perguntas sobre o dia-a-dia, sentimentos e vontades dos pacientes.

Em uma dessas conversas, a médica assistente Maria Perez explica como os cuidados paliativos impactam em sua vida. “Você passa a dar um valor maior para as pequenas coisas então começa a valorizar coisas do cotidiano, a aproveitar melhor a sua vida, as pessoas que estão em volta de você. Eu acho que você começa a dizer melhor o quanto elas são importantes e demonstra carinho”.

A cada azulejo atravessado, há mais certeza de que a troca de experiências mais intensas é tão benéfica para os médicos, como é para os pacientes. O fisioterapeuta Ari Alves não tem dúvidas sobre como os cuidados paliativos o afetaram de forma positiva. “O impacto emocional, pelo menos para mim, é que me torna um ser humano um pouco melhor”.

Nos corredores as certezas dos médicos sobre a vida tornam-se mais claras. É onde percebem que fazem parte do sonho dos pacientes e que ali acontece uma corrida em que cada passo dado é o que realmente importa.

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