Rádio, bastidores e quatro dedos de coca

Duas horas da tarde de uma terça-feira. Estúdio vazio, com o ar-condicionado já ligado. O ambiente é quente demais e precisa ser resfriado pouco antes da gravação. Mais cedo, lá pelo meio dia, Paulo Alcoragi Filho já apareceu na produtora em que fica seu estúdio. Nas mãos, a inseparável garrafa de coca-cola enrolada em um saquinho de mercado. Fumante, o editor de áudio não resiste ao refrigerante gelado. Às três horas começa a captação do Programa Siga Bem Caminhoneiro, o que o compromete até as 18h.

Nascido em 24 de setembro de 1952 e criado na capital paulista, já não aguenta mais a cidade. “Aqui tem muito trânsito, muita poluição”. Longe dali, cerca de cem quilômetros, fica sua casa, em Itatiba. Para chegar ao local, Alcoragi atravessa dois corredores de árvores em meio às ruas ora de asfalto, ora de barro. “Aqui é bonito, né? Só é ruim quando chove”.

O portão de ferro da casa possui um buraco em forma de triângulo no meio. Quando aberto, revela uma subida e um espaço coberto para dois carros. Grande, o terreno comporta, ainda, a casa, um quarto, uma piscina e um espaço relativamente grande de área comum fora dos ambientes fechados.

“Meu filho [Fernando Alcoragi, 38] que desenhou a planta. Quando a gente veio ver, eu achei que a casa seria pequena”. Paulinho, como é carinhosamente chamado, ainda teve uma filha, Carol, 31. O xodó do editor, e mais novo membro da família, é o neto Felipe, 6 meses, filho de seu primogênito. “Semana passada ele [o neto] veio aqui. Se você estivesse aqui também, nem teria atenção”.

Tal paixão pela criança é vista em seu “cantinho especial”. Um quarto fora da casa que abriga seu espaço para ferramentas, uma mesa de sinuca e um mural que ocupa, de maneira parcial, três paredes. “Era pra ser só de futebol, aí eu coloquei as viagens da Carol, os shows que eu já fui, alguns amigos antigos e, claro, as fotos do nascimento do Felipe”.

Na mesa, em vez de tacos e bolas de sinuca, colas pritt e recortes de folha sulfite. “Ainda vou cobrir todo o ambiente com fotos”.

Na casa, a esposa com quem vive há cerca de 40 anos já prepara o almoço. Simpática, Maria Benedita, 57, não esconde seu orgulho e já puxa o livro “Como falar no rádio”. “Olha o Paulinho aqui! Sou mesmo uma esposa orgulhosa”. Além das páginas estampadas com as fotos do marido, Benedita ainda traz consigo a reprodução de uma matéria de jornal onde está escrito “Paulinho Coragem, eleito um dos melhores sonoplastas do país também assinou com a Pan II”, de 03 de agosto de 1982.

O abraço à labuta
Sentado à mesa da cozinha, enquanto corta o pão francês em rodelas, o editor, calmamente, conta os acontecimentos que o levaram aos estúdios. “Quando eu era mais novo, trabalhei em um ateliê fazendo bolsas que eu mesmo vendia no centro”. O trabalho manual durou de 1968 a 1970, quando completou 18 anos.

Aos risos, lembra da época em que trabalhou no “Bar Brechor”, na Rua Treze de Maio. “Eu entrava de moto no bar. Quando alguém pedia para que nós [garçons] tirássemos a mesa, nós a levávamos embora, literalmente”. Além de servir, Paulinho também cantava e tocava seu violão. “As pessoas me pediam as músicas, mas eu nunca atendia. Sempre tocava outras”.

À época, Alcoragi e Benedita já estavam juntos. Num momento nostálgico, lembram de como o movimento do lugar era intenso. “A gente atendia os clientes na calçada de tanta gente que ia. Cansei de pegar a Bene [sua esposa] e ir ao Jumbo [atual Extra] comprar uns 100 litros de cerveja. Era o único lugar 24h lá na Brigadeiro”.

Dois anos depois, em 1973, e já com um filho, Paulinho decidiu tomar um rumo diferente na vida. “Eu tinha voltado à casa dos meus pais porque sofri um acidente de moto e fiquei dois anos engessado. Sem grana e agora com esposa e filho, eu precisava de um trabalho mais firme”.

Seu pai, Paulo, pediu ao amigo Goulart de Andrade que desse uma força ao rebento. “Ele indicou um amigo [Walter Guerreiro] que tinha uma produtora de áudio que precisava de um operador de som para fazer coisas simples como editar músicas e as copiar para fitas cassete”.

Sem familiaridade com o ambiente dos estúdios, o editor inventou que já havia trabalhado na área para garantir a vaga. “Eu não sabia nada sobre rádio ou estúdio de gravação. Menti e ele me contratou”.

Pernas cruzadas e balançando em sua cadeira de plástico. Braços apoiados na cabeça. Alcoragi, agora, tem em seu semblante a expressão de orgulho de tudo por que passou. “Quem me ajudou foi o Ricardo Sanchez”, diz ao se referir a um dos funcionários da produtora e que trabalhava, também, na Jovem Pan. “Eu contei a verdade a ele, que acabou me ensinando a mexer em tudo. Ele foi muito paciente”.

Já inserido, Paulinho trabalhava muito – chegava a ficar mais de uma vez por semana das 9 h de um dia até às 17h do seguinte. Para dar conta das edições, Alcoragi aprendeu a editar em rotação alterada, mais rápida.

“Nessa época, os meus primos sempre sabiam quando eu estava em casa. Como eu só tinha uma calça, lavava no fim de semana e a secava na janela”. O quitinete, emprestado pelo amigo do dono do estúdio, ficava em frente ao Minhocão.

Não demorou muito para o editor entrar no mundo do rádio. “Antonio Celso (diretor artístico da rádio Excelsior, hoje CBN) me deu o primeiro emprego em rádio, em 1974”.

Depois de certo tempo, começou a trabalhar, também, na concorrente. “Recebi uma oferta da Rádio Difusora (Tupi). Falei com o Antonio Celso e, como ele disse que confiava em mim, me deixou trabalhar nas duas”. Na época, música internacional era coisa exclusiva, pois não havia quem as trouxesse dos EUA.

Os traços do sorriso já marcam a face de Paulinho. Como quem revive cada momento de um sonho, o editor começa a rir. “Era engraçado receber na Tupi. Quando saía o pagamento, todos tinham que correr. Formávamos uma fila enorme de funcionários e atores. Quem não estivesse no dia, não ganhava. E ainda tínhamos que correr ao banco, porque os cheques ficavam sem fundo muito rápido”.

Entusiasmado, conta como conheceu Roberto Carlos, o rei do rock nacional. “Fui gravar uma entrevista com um amigo para a rádio Difusora, isso em 1977. Quando terminamos, vimos que não tínhamos gravado nada. Perguntamos se podíamos fazer de novo e ele falou ‘Tudo bem, bicho, vamos lá’. Foi a única vez que eu dei aquela ‘tremidinha’ com um artista”.

De 1982 a 1991, trabalhou na Jovem Pan fazendo toda a plástica da rádio. Em 91, montou sua produtora, onde edita programas, faz spots e vinhetas para rádio. “Eu tinha o Emílio Surita como sócio, mas, com o Pânico, ele acabou ficando sem tempo e eu fiquei com o estúdio para mim”.

O atual projeto com a Produtora Cobram aconteceu por acaso. “O pessoal de uma produtora me indicou para o Siga Bem Caminhoneiro e eu acabei conhecendo o Sr. Raul [Dono da empresa] e o Sergio Reis [Apresentador do programa]”.

Desde 2009, desistiu de morar em São Paulo e edita tudo de casa em seu quarto azul e que, orgulhosamente, ostenta prateleiras feitas por ele mesmo na parede. “Eu preciso ser muito disciplinado, pois tomo café e, em trinta segundos, já estou no trabalho”.

A morte de Amélia
O editor sério, chato com o trabalho e que sempre pede silêncio no estúdio na capital, em casa é mais do que bem humorado. Conta as “peripécias” da juventude. “Antes de pensar em rádio, eu gravava radionovelas com a Bene. Fizemos uma em que minha tia Amélia era assassinada por meu tio Ivo”.

Mais novo, fora criado no Brooklin. “Lá era tudo mato, da Rua Guaraiúva até o Rio Pinheiros”. Estudava em escola particular, mas aprendeu com sua mãe, Clotilde, a não ter preconceitos. “Meu melhor amigo, o Newton, era muito pobre, morava em uma casa que o chão era de terra”.

Mas nem todas as memórias da infância de Paulinho são boas. “Meu pai era muito ausente. Mais tarde, descobrimos que ele tinha outra família, outros filhos também. No seu enterro, conheci meus meio-irmãos, mas não foi como em novela. Nos vimos, mas não mantivemos contato”.

A simplicidade do editor não fica apenas nas camisas lisas e suas inseparáveis calças jeans. A esposa revela uma característica do marido. “Ele é um ótimo pai, sempre foi muito bom com crianças. Parece até um ímã”.

Fica quase palpável tal característica de Paulinho. O “Vovô da Mata”, como se autodenomina, tem em si o orgulho pela família, pois, para ele, a “missão cheia de dificuldades” vale muito a pena. Longe do glamour que a mídia pode trazer, se apega aos detalhes da vida, a graça e ao prazer que ainda sente em seu trabalho e à inseparável garrafa de coca.

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4 thoughts on “Rádio, bastidores e quatro dedos de coca

  1. Carolina says:

    Boa noite,
    Desculpe, não sei o seu nome.
    Queria parabenizar pelo seu texto, vc conseguiu dizer muito sobre essa pessoa que amo tanto!
    Abraços,
    Carolina

  2. Carlos Alberto Galvão Medeiros says:

    Esse é meu tio Paulinho, casado com a Bene que eu chama de Ditinha. Linda história, linda familia.
    Carlinhos

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