Teatro, Não Fede e Não Cheira

São 18h de uma segunda-feira. A capital paulista está quente e com ar irritantemente seco. Não chove há um bom tempo. Tanto que não me recordo uma data precisa.

Dentro de um ônibus que balança no asfalto torto, vou em direção à minha casa. Pouco tempo depois, o coletivo para. Passam-se cerca de 20 segundos e um notório viajante se aproxima do fundo do ônibus, por acaso, de costas para mim.

Ar abafado, via-se o suor escorrendo dos fadigados trabalhadores. De repente, de maneira curiosa, o novo passageiro veste um colete marrom por cima de sua camiseta manchada de cândida.

Luvas pretas e um chapéu xadrez por cima de um curto rabo de cavalo. Com um sorriso de quem guarda os segredos do mundo no bolso da calça, ele vira com um enorme nariz marrom para o fundo do coletivo.

Não fede é um dos “Apertadinhos”. Seu parceiro, Não Cheira, se encontra do outro lado da catraca. Mais proeminente, para não dizer cheinho, esse chama atenção para si.

Os dois se apresentam, e fazem o mesmo com sua proposta, o Circo de “Soleu”, cantando “O Cabide do Molambo”. No ônibus tratam de assuntos como trabalho e preguiça.

E, para divertimento dos que gostam de cultura brasileira, usam o Mestre Adoniran Barbosa para legitimar as suas falas contra a obsessão pelo trabalho.

"Quando Deus fez o homem,
Quis fazer um vagulino que nunca tinha fome
E que tinha no destino,
Nunca pegar no batente e viver forgadamente.
O homem era feliz enquanto deus assim quis.
Mas depois pegou adão, tirou uma costela e fez a mulher.
Deis di intão, o homem trabalha prela.
Mai daí, o homem reza todo dia uma oração.
Se quiser tirar de mim arguma coisa de bão,

Que me tire o trabaio. a muié não!" (Progréssio - Conselho de Mulher)

Depois de muitas cenas regadas com filosofia e cultura, os palhaços fecham o número questionando a felicidade humana. Como bem lembraram, “O homem é o único animal que tenta ser feliz. O resto simplesmente é”.

Quem gostou dos atores ainda tem uma chance única, contribuir com o banco envelope. Onde, segundo eles, você patrocina a cultura e os gastos dos mesmo diretamente e, de quebra, pode enganar o palhaço ao fingir ter colocado verdinhas no pequeno papel vermelho.

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