Bate-Papo com Fernando Meirelles

Na semana do dia 06 ao dia 10 de Outubro, alunos de audiovisual da ECA-USP organizaram a IX Semana de AudioVisual. As atrações aconteceram em 4 locais distintos: Espaço Unibanco Augusta, Auditório Paulo Emílio, Cinusp Paulo Emílio e na Prainha (um espaço aberto na própria ECA, em frente ao prédio principal). Como tema para debates, abordaram a crítica e produção audiovisual nas últimas décadas e a dinâmica de estilos e linguagens.

O evento contou com diversas atividades, como exibição de alguns filmes feitos pelos próprios alunos de audiovisual, mesas de debates, exibição de filmes de ex-alunos de cinema, e claro, bate-papos como o de Fernando Meirelles, um dos diretores mais conceituados da atualidade, dirigiu ‘Cidade de Deus’ e, o mais recente, ‘Ensaio sobre a cegueira’.

O bate-papo, que rapidamente superlotou, aconteceu no Auditório Paulo Emílio da ECA e durou quase três horas.

***

Você sentiu falta da formação de Audiovisual?

Fernando Meirelles: Fiz a FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo)-USP, mas acho que o arquiteto é como o diretor: não sabe montar, não sabe maquiar, não sabe atuar. Tem um pouco de cinema, você só coordena.

Muitas pessoas que estão no mercado não tem formação[específica em audiovisual, cinema]. Qual a sua visão com relação aos que estão saindo?

Meirelles: Não vou dizer que formação sólida é inútil, porque não é. Mas o lado bom de eu não ter tido uma formação é que tive uma bula [de como produzir audiovisual]. Durante anos fizemos [Fernando Meirelles, Marcelo Tas e Renato Barbieri] programas de TV, som, sem técnicos para nos ensinar. Acabei inventando meu jeito. Tive muitos erros, mas também muita liberdade. Talvez se eu tivesse visto que isso nunca se faz, talvez eu não tivesse testado.

 

Como você vê a Tv? Qual o papel na construção da identidade/debate/espaço público?

Meirelles: Teve papel importante. Foi estratégia que usaram para unificar o país. O Brasil era muito mais diverso e menos unificado do que é hoje, com a tv. A programação, eu a acho muito ruim, não consigo assistir. Mas é movido à patrocínio. Ela é o que a gente é.

 

O que você achou do ‘Última Parada: 174’ como pré-indicado ao Oscar 2009?

Meirelles: É, sem dúvida, melhor [filme] do Bruno Barreto. Não sei se tem chance, mas o Michel Gomes [protagonista] é ótimo.

 

Você, Marcelo Tas e o Paulo Morelli fundaram a 02 filmes. E, mesmo sem formação acadêmica específica, atingiram um status. Você acha mais difícil alguém traçar um caminho como você?

Meirelles: Eu acho que hoje tem uma facilidade para quem está começando, o que eu não tinha na época. Para fazer cinema era impossível, o custo do negativo era muito alto. Hoje, com seu laptop, você faz. Tem 500 maneiras de mostrar seu trabalho. Hoje acho que é mais fácil começar do que antes.

 

Os filmes ‘Cidade de Deus’ e ‘Jardineiro Fiel’ têm realidade muito distante da sua. Como retratar essa realidade?

Meirelles: Na verdade você entra em temas que é estrangeiro. O olhar do estrangeiro sempre capta algo a mais. O fato de eu não conhecer cada detalhe me impressionava. Quem está acostumado com o dia-a-dia da favela, por exemplo, não repara nos detalhes. Nos dois filmes, me preparei muito. Passei seis meses fazendo workshops. Todos os garotos tinham histórias. Você escolhe um tema e vai fundo nesse universo.

 

Como você enxerga o papel do cinema, sua relação do fazer cinema?

Meirelles: Vejo como um espelho do país. Tem que dialogar com a vida das pessoas. Nós temos que nos identificar. Por isso que acabo escolhendo temas que me interessam e tento fazer da melhor forma possível.

 

O público no cinema brasileiro teve uma queda significativa. Você acha que a falta de identificação [com o cinema nacional] se faz por falta de tradição ou é uma questão econômica?

Meirelles: Essa queda não é só no Brasil, é no mundo. Todo mundo criou os ‘cinemas-boutique’. Não é o desinteresse. O que eles atribuem a isso são as novas mídias e a pirataria. Na Espanha, simplesmente acabou o DVD. O filme passa no cinema e no outro dia sai o pirata.

 

E com mídias digitais, você acha que o cinema vai acabar?

Meirelles: O cinema ainda vai ocupar espaço, só não vai crescer mais. É uma linguagem específica. Um sonho coletivo.

 

Você fez o ‘Cidade de Deus’, também teve ‘Tropa de Elite’ do Padilha. Você acha que esse ‘cinema denúncia’ é a identidade do Brasil ou ela ainda está sendo descoberta?

Meirelles: Está sendo, está se abrindo. Tem grandes promessas, mas é um “rio” a se olhar, porque vai dar “peixe”.

 

Sobre o ‘Ensaio sobre a cegueira’, como foi com Saramago?

Meirelles: O primeiro encontro foi em Lisboa. Mas, quando eu fui fazer a primeira pergunta do livro, ele falou: “não vamos falar sobre o livro!”

Eu mandava e-mails e ele respondia bem-humorado, mas não deu nenhuma dica. Infelizmente, ele colaborou muito menos do que eu gostaria. Saramago disse que o cachorro era o personagem mais importante, o que ele mais gostava. Ele disse que eu acertei em tudo, mas o cachorrinho era bonitinho demais, não era complexo e interessante como deveria. Eu poderia errar em tudo, e, logo onde eu não podia, errei.

 

O acesso ao cinema é um tanto quanto restrito. O que você acha que dá pra fazer?

Meirelles: É muito caro, e acho isso um absurdo. O Estado [que investe nos filmes brasileiros] “banca” só para 10, 15 porcento poder pagar. Tem investimento público, mas só uma fatia [da população] tem acesso. O Estado deveria ter uma cota, distribuição gratuita. O filme já está pago. A população deveria ter acesso ao que o imposto está “bancando”.

 

Texto: Tissiane Alves Vicentin

Foto: Gustavo Limão

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7 thoughts on “Bate-Papo com Fernando Meirelles

  1. cirillo7 says:

    Parabéns, Tissi, pela matéria e parabéns, Limão, pelo blog… Também entrei nessa onda virtual pra escrever um pouco… Agora posso sempre olhar por aqui e deixar meus comentários… hehehe
    Abraços

  2. cirillo7 says:

    E já que meu nome não se transforma num link pra vcs verem minha página… cirillo7.wordpress.com
    Continue assim! É divertido isso!

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